AMOR

Ela sempre implicou com o meu sotaque. Por acaso isso é defeito em alguém? A gente não é, em resumo, o lugar onde vive?, até pensei em perguntar, mas o momento era mesmo inadequado: era a primeira vez que a via novamente passado tantos anos.

E veio então não só a pergunta, mas a maneira como ela era feita: ambas, intrigantes.

Lembra da última coisa que eu te disse antes de partir? Você se lembra?

É claro que eu me lembrava, me incomoda até hoje aquele momento, cheio das lágrimas daquela mulher que nunca chorava, e que era a única que eu sempre havia admirado exatamente pela força de não se dobrar diante dos problemas. Nem mesmo daqueles que desnorteariam qualquer homem. Sim, deveriam existir mais mulheres como aquela no mundo. Foi no que pensei, e também que mesmo com toda sua força, elas foram, no fundo, feitas para serem cuidadas, pelo ponto de vista profundo que é o do amor.

É, eu me lembrava. Mas ela não me permitiu dizer.

Eu tô viva. Eu consegui. Eu consegui...

E em soluços se abraçou a mim.

Como da vez que ela partiu.

E eu continuei ali calado.

Como da vez que ela partiu.

 

*

(Continua)



Escrito por Intelecta City às 08h56
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Um soco bem no meio do nariz do filho da puta.

Ele se levanta. Mãos cheias do sangue que ele olha sem acreditar; sangue do seu nariz. Filho da puta.

Você é louco? Você é louco, cara?! Porra, o que foi que você fez?!

Falo.

Não, eu não sou louco. Dei um soco na merda do seu nariz. Foi isso. Você queria saber, pois bem, tá dito. Agora é a sua vez de responder, prepare-se.

Eu sempre fui um homem calmo, quieto, que mais gosta de ouvir do que de falar, mas hoje sinto que por algum motivo, não vou parar de falar. Perco o sotaque com a frieza. Quase por inteiro, percebo. Eu não vou parar de falar. A calma (indicando paz) se foi, mas aí eu sei exatamente por quê. O sorriso em meu rosto é sintoma de outra calma, da que restou: a calma da frieza, do ódio, da raiva.  

*

 

Por que você fez aquilo? Não precisava daquilo. Não se faz aquilo com ninguém. Você é um monstro. Um monstro.

Bilhete não assinado. As letras manchadas de lágrimas. O dono da pensão onde dormia tenta me dizer que uma mulher é quem o tinha trazido, mas antes que ele termine pago as diárias e vou embora. Eu não preciso me explicar a você, nem você a mim, penso.

Aquilo. Daquilo. Aquilo com ninguém.

Penso na contabilidade e só depois na resposta que nunca darei, porque eu sei que isso será impossível.

Cinco dentes, nariz, duas costelas, dedo mindinho da mão direita, quebrados; e como que o filho da puta sangrava.

A pergunta do bilhete deveria ser: por que você fez só aquilo? Mas ela não sabe. Talvez nunca saiba. É só para essa pergunta que existe resposta.

 

*

(Continua)



Escrito por Intelecta City às 08h55
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Não o matei. Não ia me sujar com a morte do filho da puta. Já basta ter se sujado com o seu sangue imundo. A camisa nunca vai ficar branca. Cinco/seis lavagens, nada. Esses comerciais sobre roupas mais brancas que o próprio branco, não passam de uma mentira deslavada. Não vou me desfazer da camisa. Ela vai continuar no varal, desbótada, envelhecendo até desaparecer pelos efeitos do sol, do vento, e se calhar de alguma chuva. Mas o meu ódio nunca vai desaparecer. O do Toinho já desapareceu. É certo. Ele deu fim no filho da puta. Mas ele vai guardar os dentes. Os dois dentes que mandei via sedex para ele, contando em carta anexa que eram do filho da puta que havia feito mal a sua filha quando voltava, pura, intocada, da escola para casa; disse ainda que os dentes eram para facilitar o reconhecimento do fulo porque ele havia mudado muito desde aquele tempo, e havia mudado mais ainda depois da surra que dei em consideração e respeito a ele e a sua filha. Surra que o deixou com a cara quase inteiramente desfigurada e sem cinco dos seus dentes. Mas isso eu só disse no final da carta, quase como que em um PS, onde eu falava em que lugar ele se escondia agora. No PS, os dentes são em lembrança e respeito a você - a sua filha -, mas não diga nada a ela. Se ele fosse responder por escrito a minha carta, seria curto, me agradecendo e dizendo que eu devia de ser o único sujeito que ainda escrevia cartas com o avanço de tudo por aí, mas ele não respondeu por escrito. O seu sinal de agradecimento foi contratar um matador para o filho da puta, que nem era de verdade o que mexeu com a sua menina, porque esse tinha fugido ninguém sabe para onde. Mas ao mesmo tempo em que ele me fez um favor, eu fiz um para ele: agora ele finalmente poderia olhar na cara da sua menina. O ódio dele deve ter passado. Talvez todas as vezes que olhe para os dentes exiba um sorriso. Ou não. Mas eu sorriria, todas as vezes, contente, orgulhoso, e apenas triste ao lembrar que aquelas atitudes fizeram com que eu nunca mais pudesse vê-la. A mulher de força única. A mulher que implicava com o meu sotaque. Eu deveria ter guardado comigo um dos dentes. Porque dentes não envelhecem e desaparecem tão rapidamente como camisas e verdades que se tornam mentiras.

 

*Conto escrito por Homem Invisível

**Quinta-feira tem dicas culturais para você!



Escrito por Intelecta City às 08h54
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Intelecta-Dicas #7

CD: O álbum Sinceramente da cantora paulistana Paula Lima merece destaque. Lançado em 2006, o CD reúne músicas inéditas na voz da cantora. Entre elas, Novos Alvos de Zélia Duncan é o carro-chefe.

Como não poderia faltar, há músicas compostas por Seu Jorge. Paula grava músicas do cantor antes mesmo dele começar a gravar.

O álbum é repleto de samba-rock, soul, funk e todo o suingue peculiar da paulistana. Vale a pena ouvir!

 

Livro: Para quem não conhece ou ainda não leu a peça teatral “O Pagador de Promessas” de Dias Gomes, não pode deixar de ler. O filme feito a partir da peça, em 1962, foi o único filme brasileiro a ganhar a Palma de Ouro. A trama conta a história de Zé do Burro que fez uma promessa à Santa Bárbara num terreiro e é impedido de entrar na igreja da cidade para cumprir sua promessa, impedido pelo padre. A situação gera conflitos e façanhas que revelam os interesses, egoísmos, preconceitos e conservadorismo da sociedade brasileira. Uma obra atual, sem dúvidas!

 

Poesia da Semana:

 

Atrás da Porta

Quando olhaste bem nos olhos meus
E o teu olhar era de adeus
Juro que não acreditei, eu te estranhei
Me debrucei sobre teu corpo e duvidei
E me arrastei e te arranhei
E me agarrei nos teus cabelos
No teu peito, teu pijama
Nos teus pés ao pé da cama
Sem carinho, sem coberta
No tapete atrás da porta
Reclamei baixinho
Dei pra maldizer o nosso lar
Pra sujar teu nome, te humilhar
E me vingar a qualquer preço
Te adorando pelo avesso
Pra mostrar que ainda sou tua
Só pra provar que ainda sou tua
 (Chico Buarque)


Escrito por Intelecta City às 09h21
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Luto

Em memória às vítimas do maior acidente (?) aéreo do Brasil, o Intelecta não dará dicas e nem poesia, como toda a quinta-feira.

Enquanto mais de 180 famílias choram a morte de seus parentes em Congonhas, no vôo 3054 vindo de Porto Alegre, não há poesia e nem palavras que consolem e que nos façam compreender o que realmente aconteceu.

Meus sinceros sentimentos.

Que isto deixe, ao menos, a reflexão sobre a segurança (se ela existe) da viação brasileira!

Beijos e Abraços!

Até segunda!

 



Escrito por Intelecta City às 13h17
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Estranho amor

Ele entrou devagar, me ofereceu um cigarro e pediu o de sempre. Não quis o cigarro, mas fiz o que me pediu de forma especial. Ele era especial. Um homem de 30 anos, empresário, bonito, elegante... Mas era casado.

Os homens bonitos sempre são casados, me dizia Carina. Acho que ela estava certa e aquela constatação só aumentava a minha convicção de nunca iria me casar.

Carina dizia que se casar não é bom, porque o homem quer sempre dominar, quer sempre prender a mulher em uma gaiola. O amor era tão estranho, tão pequeno, talvez apenas um sentimento de contos de fada e não me parecia real naquela época em que conheci Carina.

Nós trabalhávamos juntas fazendo cortinas. Ela cortava o pano e eu costurava na máquina de costura que lembrava a minha infância. Minha avó sempre sentada na salinha de costura e o barulho da máquina. Tempo bom!

Ele beijou minha mão, se despediu e foi embora. Era o único que beijava a minha mão. Depois que briguei com a minha família, com Carina e com o mundo para ficar com Paulo, este era o único gesto que me lembrava o amor. Paulo me batia, me espancava e me fez sua escrava. Não nos casamos como manda o figurino, mas nos juntamos.

Lembrava das palavras de Carina cada vez que ele me agredia: Casar não é bom. Aquilo martelou tanto em mim que fugi. Continuo não acreditando no amor, mas cada vez que ele encosta os lábios no dorso da minha mão, sinto que meu coração vai explodir... Mas ele é casado.

 

*Conto escrito por Priscila Maravilha

**Toda segunda-feira é dia de conto aqui no Intelecta!



Escrito por Intelecta City às 08h43
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Intelecta-Dicas #6

DVD: O filme Mulheres do Brasil, lançado em 2006, é uma boa dica para quem gosta de pequenas histórias e conflitos do universo feminino. São contadas as histórias de cinco mulheres diferentes e que vivem em cidades diferentes: Maceió, Curitiba, Rio de Janeiro, São Paulo e Bom Jesus da Lapa. É impossível não se identificar com uma das vidas interpretadas por Camila Pitanga, Dira Paes (indicada ao Grande Prêmio Cinema Brasil de Melhor Atriz Coadjuvante), Roberta Rodrigues, Bete Coelho e Luana Carvalho.

 

Exposição: Imagens do Soberano – Acervo do Palácio de Versalhes está em cartaz na Pinacoteca do Estado de São Paulo e é a primeira exposição que o Museu do Palácio de Versalhes, na França, organiza na América Latina. O acervo é composto por quadros que retratam a monarquia francesa dividido em três categorias:  Luís XIV - imagens de um soberano absoluto; Luis XV e Luís XVI: de soberanos com poder divino a homens e A imagem da Rainha e dos Herdeiros do Trono. A exposição fica em cartaz até o dia 5 de agosto de 2007.

Mais informações: (11) 3324-1000

 

Poesia da Semana:

 

O mundo é grande

O mundo é grande e cabe

nesta janela sobre o mar.

O mar é grande e cabe

na cama e no colchão de amar.

O amor é grande e cabe

no breve espaço de beijar.

(Carlos Drummond de Andrade em“Amar se Aprende Amando”)

 



Escrito por Intelecta City às 09h12
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Disquei rapidamente o número da casa dele. 4, 7, 12 chamadas e nada. Caiu.

- O celular!

- “ ... informa: este número encontra-se desligado no momento.”

- Merda!

Pulei da cama e fui até à janela. O dia estava clareando. Tomei banho e me troquei num tempo recorde. Peguei a mochila, o celular, saí.

Motorista veado! Quando é para correr não corre! Quase meia hora para percorrer cinco quarteirões.

Desci na esquina da casa dele. O celular começou a vibrar na bolsa. Somente nessas horas a gente percebe quanta tralha carrega na mochila. No visor, o número do celular do Naldo, irmão dele.

- A-alô...

- Pati...

Fui chegando em frente à casa deles. Tudo fechado, a moto e o carro não estavam na garagem.

- Naldo...

- O Nato, Pati.

- O que tem o filho da puta do seu irmão, Naldo?

Sabe a sensação de estar afundando na lama?

- Dengue hemorrágica, Pati. A gente... O Nato...

 

- Motorista veado! Tá com lama nas rodas, porra?

 

* Texto escrito por Super Silva

**Toda segunda-feira tem um conto novo para você aqui no Intelecta!



Escrito por Intelecta City às 08h38
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Intelecta-Dicas #5

Na internet: Para quem gosta de cultura e assuntos relacionados, o site Rabisco é uma ótima opção. Faço parte da equipe de colaboradores deste site e gostaria que vocês, queridos leitores, prestigiassem esta page que é feita por jornalistas interessados em levar informação cultural de qualidade e de forma crítica. Acessem: www.rabisco.com.br!

 

Livro: Antes de ir para as telonas, “O Cheiro do Ralo” é o livro do escritor Lourenço Mutarelli e que, após o filme, ganhou uma nova edição nas livrarias. Para quem gostou do filme, vale a pena ler o livro e constatar que ele foi fielmente retratado pelo cineasta Heitor Dhalia. É claro que a riqueza de detalhes do livro é insubstituível, mas uma coisa complementa a outra. Então, leia o livro e assista ao filme ou vice e versa!

 

Poesia da Semana:

 

Motivo

 

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.

 

(Cecília Meireles)

 

* Toda quinta-feira você confere dicas culturais aqui no Intelecta!



Escrito por Intelecta City às 09h07
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Edição Extra

O Inesperado

Nenhum palpite. Minhas frases curtas acabaram e a sensação que agora me toma é a de que me tornei um monstro de silêncio para todo o sempre. Hoje tudo parece um pouco morto demais: desde as flores em respeito, em consideração, saudação, até as poucas depositadas com verdadeiro amor em seu túmulo.   

* Texto enviado por Homem Invisível - Colaborador do Intelecta

**Quinta-feira tem dicas culturais para você!



Escrito por Intelecta City às 08h38
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À flor da pele

Não sabia se ria ou se chorava. O sangue escorria no pátio, formava pequenas poças. O frio de cortar a pele, em pleno setembro. O sangue coagulava com uma fina camada gélida. Gostava do inverno. Era uma estação em que as pessoas ficavam mais elegantes, mais cobertas. Talvez fosse moralista demais: pessoas escondidas atrás da roupa pesada.

O sangue passou por entre suas pernas. A perfuração fora profunda. Bastou um tiro. Aquele rapaz era prepotente, mas era da família. O respeitara até o dia em que se deu o acontecido.

Mãos juntas, muito juntas, e os corpos também. Fixou o olhar nas mãos. Por um tempo ficou sem acreditar no que estava vendo, mas era verdade.

Sabia que ali naquele bar o rapaz passava as noites jogando sinuca e charme para os entendidos. Era alto, esguio e moreno. Chamava atenção por onde passava. Ele não; era discreto, alto, branquelo e magrelo. Em nada tinha atributos, pensava. Foi até lá e o chamou para uma conversa em uma quadra vazia. O rapaz foi. Tudo aconteceu rápido demais. Ele queria se explicar. Repetia por várias e seguidas vezes a palavra “primo”. Talvez só aquilo os unisse: laços sanguíneos.

Olhou para o sangue novamente. Desgraçado! Me traiu com o meu namorado!

Teve o fim que merecia.

Pensou no amado. Homem lindo, mas ordinário... Terá troco!

Finalmente levantou-se do chão vermelho e gelado, sorriu e foi embora.

 

 

* Conto escrito por Priscila Maravilha

** Toda segunda-feira tem um conto novo para você aqui no Intelecta!

 



Escrito por Intelecta City às 08h24
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