BIOGRAFIA DE DUAS VIDAS EM UMA
Sentada à beira do abismo, ela se perguntava para quê servia a vida se ela já não sorria mais. Olhou a profundidade do penhasco, mas não pôde ver bem, pois os olhos estavam embaçados. Da altura em que se encontrava, podia sentir o leve vento que tocava seu corpo, seu rosto e suas mãos.
Maria Luíza nasceu Arnaldo Lourenço Lima. Quando criança, brincava escondido com as bonecas da irmã e calçava os sapatos da mãe. Certa vez, ousou passar um batom vermelho carmim e se sentiu o máximo. Aos 16 anos, tentou namorar uma colega da escola, mas logo percebeu que o que interessava naquele namoro era aprender as técnicas femininas. Sem saber, Paula o ensinou a sentar de pernas cruzadas, a gostar dos perfumes doces e fazer charme. Após a “lição” sobre como se portar delicadamente em um almoço, Arnaldo terminou o namoro.
Aos 19, convidou um colega de faculdade para dormir em sua casa e passou a noite em claro observando aquele corpo atlético e sem pêlo do nadador olímpico. Pronto! Pela primeira vez, havia se apaixonado. Porém, o romance não avançou, já que o bofe não era do “babado”.
A partir daí, Arnaldo de Souza começou a morrer para a sociedade e em pleno verão, aos 20 anos, nasceu Maria Luíza, uma Drag Queen de estilo. Caminhando pela Rua 25 de março, no centro de São Paulo, as plumas e paetês encheram as sacolas da diva e o figurino foi inspirado em Isabelita de los Patins, sua musa inspiradora.
Cada vez mais convencida de que era uma mulher e que faria de tudo para ser, Maria Luíza fez plásticas reparadoras, colocou silicone, fez depilação a lazer, esticou o rosto, tirou a barba e fez pelling. Estava, enfim, transformada.
O primeiro namorado foi um empresário cheio da grana que a vestia com as melhores roupas e jóias verdadeiras. O segundo, foi o mecânico da oficina em frente ao apartamento de luxo em que morava com o empresário. Este durou pouco, foi um affair, como dizem as celebridades.
Os anos se passaram e de repente Maria Luíza se achou velha, aos 30 anos. Decidiu entrar na onda do botox e aumentar os seios. Saiu renovada da clínica, recebendo elogios por onde passava. Abandonou o empresário, o mecânico e foi viver com um jogador de futebol no Rio de Janeiro. O bofe era pobre, estava iniciando a carreira, mas sem descer do salto, Luíza aceitou fazer shows em boates para ajudar na renda. Acostumada com a vida de princesa, ela fazia de tudo para ter dinheiro, mas Pedrão, o jogador de cochas grossas, gastava mais do que ganhava.
Viveram felizes por um bom tempo até que o botox e os seios começaram a cair e os pêlos a crescer. Pedrão, indignado com o que via, mandou Maria Luíza embora. Desiludida, agora ela estava ali de cara com a morte. O botox não a deixava sorrir e nem chorar e os seios alcançavam o umbigo!
Mesmo triste, ela desistiu do se jogar no penhasco, levantou, sacudiu a poeira e disse a si mesma: "Sou uma mulher, e as mulheres não desistem nunca".
*Conto escrito por Priscila Maravilha
** Toda segunda-feira tem um conto novo para você!
Escrito por Intelecta City às 11h04
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SEGUNDO
É um sonho.
Que parece tão real a ponto de o corpo, a alma e a mente dela, alienados pelo profundo do inconsciente, tomarem por ridículo toda forma de limite.
Acomodado de bruços na areia o corpo encontra um leve prazer. O sol arde bronze em suas costas, pernas e bunda que o tipinho meio playboy vê e aprova. A atenção dela, no horizonte. Ele deixa de olhar superficialmente para ela (para a bunda só por último) e segue à procura de outras, que também contemplará com essa superficialidade declarada das gentes nas praias – quase igual nas cidades, se nelas essa atitude não acontecesse, assim, despercebidamente. Porém, ainda o metido a playboyzinho concentrando seus pobres neurônios na expressão que o seu rosto demonstra, não a desvendaria.
Para ela, a viagem tem um significado muito importante em sua vida. Não se esquece disso. Acha essa solidão acompanhada da praia uma coisa divina. E em pensar que não faz nem um dia direito que saía daquela merda de cidade caótica. O apartamento, o trabalho, os muros e grades interiores e exteriores (essas malditas prisões...), as gentes por todo canto – sempre um circuito fechado. São Paulo, tisc, merda de cidade, é o que acha, mas nunca diz a ninguém.
Suspira.
Aí percebe Luciana lhe acenando um ei!, oi!, e aí?, não vem mesmo? Só balança a cabeça. Então quase ri ao vê-la arquitetando aquela mania que acha tão engraçada, de colocar as mãos na cintura e fazer cara de você é fogo mesmo, viu, menina?, você é fogo... De repente ri, não dá para conter, chega a gargalhar, porque a outra amiga em comum delas aparece por trás de Luciana e a surpreende pulando sobre ela e derrubando-a na água.
A viagem tinha sido uma coisa. Vieram no carro dessa outra amiga, e foi a maior zoação, porque a Luciana não fechava a boca, e como de costume, quando a abria era para fazer quem estivesse por perto chorar de rir, às vezes de si mesma. Essa sua irreverência sempre conquistou a todos, ela pensa, e pensa também na conversa de quase agora.
Cá, e então, vamos entrar?
Ela fez a cara de ia ser maravilhoso, mas você sabe que eu não vou.
Como assim não vai entrar? Não vai começar com aquela história de novo, né?
Olha que não é história. Eu não vou entrar não, amiga; em reverência ao mar. Entende?
Ah, pára com isso... em reverência ao mar, tisc, tisc. Você tá precisando mesmo de sexo, viu, Cá? Adeus pra você. Eu vou entrar.
E entrou. Sempre adorou esse seu jeito doido de quem não é nem um pouco doido e parece ser. Na merda de cidade caótica em que vivem Luciana é a única pessoa que conhece.
Olha o mar, as ondas se quebram umas nas outras fazendo um barulho de destruir fronteiras. A linha lá no fundo que chamam de horizonte é múltipla de possibilidades como o que existe para além da curva.
Ela está feliz.
Na verdade um rol de infinitas possibilidades, ao alcance sim.
Não percebe que chora.
Sente a alma em paz pela primeira vez faz tanto tempo.
Infinitas rotas.
Chuva sem ácido.
Estrelas não embaçadas, se calhar.
Mais vida até.
Perde-se em pensamentos e sensações. O sol arde bronze e levíssimas queimaduras em sua pele. Sente o incômodo e se vira, e é quando de repente acorda em sua cama.
A solidão da cidade do sempre circuito fechado.
Já não está mais feliz.
*Conto escrito por Homem Invisível.
**Toda segunda um conto novo pra você! Não perca!
Escrito por Intelecta City às 11h06
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- Curioso. Sempre acreditei que a única forma de fugir ao capitalismo era essa: a mendicância. Achei que ao deixar de consumir, automaticamente estaria alheio ao sistema. O capitalismo é foda mesmo. Está em todo lugar!
- Até onde não está, querido. Mas, voltando às drogas, se puder, caia fora, saia dessa vida, filho. Fuja! A única droga que eu tomo é esta.
E ergue sua preciosa garrafinha PET.
- Mas esta minha é mais forte do que eu... Ela me domina, me consome, me alucina.
- Eu sei de tudo isso. Ela tira seu apetite, seu sono, sua disposição. Ela te perturba às vinte e quatro horas do dia, não é isso?
- E muito mais. Está me levando à loucura.
O mendigo observa os pulsos do outro costurados.
- Mas saiba, amigo, que a morte não é a solução. Se fosse, de tanto que o homem mata, o mundo estaria perfeito. Me diga, ando meio desatualizado: qual é o seu caso? Coca? Craque? Pico?
O homem deixa escapar um suspiro profundo e olha para os pulsos. Uma lágrima foge de seus olhos. Depois ergue a cabeça e uma faixa de luz que escapa dentre os prédios turva-lhe os olhos claros molhados.
- Pior, companheiro. Muito pior. Esta te consome mais depressa e irreversivelmente do que qualquer outra. Depois te abandona na mais pútrida e ínfima condição. É a droga da Desilusão consigo mesmo.
O homem se levanta, acena com a cabeça e desce a rua lentamente.
O mendigo observa o homem que vira a esquina sem olhar para trás. Calado, ele passa a refletir sobre o que o mantém vivo, mesmo naquela situação desumana, e chega à conclusão de que é a Esperança. Pensa também que aquele homem destruído que acabou de desaparecer lá em baixo não viverá muito mais do que ele. A droga em que ele viciou é mais do que isto; é doença, e a mais terrivelmente maligna de todas.
*Conto escrito por Super Silva.
**Toda segunda-feira um conto novo no Intelecta pra você!
Escrito por Intelecta City às 10h15
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UM BEIJO DE ADEUS
Amortecido pelo tempo. É assim que me sinto toda vez que assisto aos telejornais. Uma criança, um idoso, dez, vinte, cento e noventa e nove pessoas mortas. A morte. Única certeza da vida.
Maria se aproximou com a notícia nas mãos: “Ela estava no vôo...”. E subitamente começou a chorar. Lágrimas. Luto. Desespero. Senti-me impotente. Logo eu que na juventude lutei contra a ditadura, fui contra o governo e quase morri por causa disso, estava ali naquele saguão sem saber o que fazer e, pior, sem forças para protestar.
Logo chegaram as autoridades e todos se aproximavam tentando entender o que havia acontecido. Deixei Maria tentando obter informações e me afastei do grupo. Andei até onde a fumaça do acidente permitia. Fiquei longos minutos olhando para o fogo e rezando para que minha neta não estivesse sofrendo. Tão jovem e tão linda...
De repente senti que o chão não estava mais sob meus pés, fechei os olhos e senti novamente aquele beijo que ela me deu antes de ir à Porto Alegre, cidade que ela gostava de visitar nas férias. Uma voz suave se aproximava... não sentia meus pés...no rosto, um vento atípico no meio daquele fogareiro. Marina pousou seus lábios em minha face e pude ouvir ela me dizer: “Vovô, eu estou bem. Te amo!” Despertei sentindo o seu perfume.
Voltei ao saguão e Maria chorava muito. Não sabia o que dizer a ela, mas, mesmo assim, a confortei em um abraço, dizendo que Marina havia ido embora, mas estava bem.
Sentado em frente a TV, vejo condecorações à ANAC, um presidente omisso e incansáveis corrupções. Enquanto o país vibra com o Pan e o governo busca soluções para o aeroporto de Congonhas, muitas famílias ainda não puderam enterrar seus mortos e eu estou aqui, me sentindo impotente e descrente neste país, no qual um dia acreditei tanto que quase dei minha vida por ele.
*Conto escrito por Priscila Maravilha.
**Quinta-feira é dia de Intelecta-Dicas para você!
Escrito por Intelecta City às 08h33
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