DESVIOS
O nome bíblico foi dado pelo pai que o tinha como um pequeno amuleto. Isaías nasceu em 1969, auge da ditadura no Brasil. Logo que veio ao mundo, o pai, seu Terêncio, ganhou o primeiro prêmio em um sorteio na empresa onde trabalhava: uma bicicleta. Com o presente, passou a ir ao trabalho e aumentava a verba vendendo os passes de ônibus. O menino estava trazendo sorte. Terêncio e a esposa, dona Cida, viviam em uma casa simples, de três cômodos, numa cidade do interior paulista. A miséria era evidente. Dona Cida pensou em abortar, mas o marido foi categórico: “Se está aí é porque Deus mandou!” Aceitaram a benção e seguiram em frente. Homem de poucas palavras, Terêncio não gostava de falar muito, mas quando a mulher lhe perguntou que nome dariam ao menino que estava para nascer, ele abriu a bíblia e disse em voz alta: Isaías.
O rebento não dava trabalho, se alimentava como um leão e aos 6 anos aprendia as primeiras letras do alfabeto. Para o pai, o menino era muito inteligente, estava se tornando um pequeno gênio. Os testes de QI, mais tarde, confirmaram a suspeita de Terêncio. Um gênio. Ele tinha uma inteligência extraordinária em casa!
A notícia se espalhou e a casa virou roteiro freqüente de romeiros que acreditava que Isaías podia fazer milagres, já que o povo acreditava que aquela inteligência só podia ser santa. Dona Cida dizia a todo o momento que isso era um absurdo, as portas sempre abertas, aquele monte de gente que trazia brinquedos, doces e pediam bênçãos a um menino de apenas 8 anos. Deus, onde vamos parar?, perguntava.
Aos poucos as notícias de curas e pequenos milagres foram sendo divulgadas na região até chegar aos ouvidos de um pastor evangélico. Seu José foi até a casa, viu o menino e disse que queria levá-lo à igreja para fazer pequenas pregações. “Mas o menino nem sabe o que é isso!”, dizia dona Cida. “Não é necessário saber, temos cursos para isso”, dizia o pastor. O sucesso estava selado. Aos 10 anos, ele dizia palavras inflamadas de fé e esperança aos evangélicos da igreja “Vivo em Jesus”, em uma cidade vizinha, recebia salário e arrastava multidões por onde passava. Seu Terêncio parou de trabalhar e eles mudaram para uma casa maior.
Com pompas de sabedoria, o pai do garoto dizia que seu filho, além de trazer muita sorte, era realmente uma benção. E dona Cida repetia: Isso é absurdo! Isaías não dizia nada, só olhava os milhares de brinquedos em cima da cama.
*Conto escrito por Priscila Maravilha.
**Toda segunda-feira um conto, uma reflexão ou uma poesia no Intelecta. Não perca!
Escrito por Intelecta City às 11h14
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Aquele gosto amargo do seu corpo Ficou na minha boca por mais tempo De amargo então salgado ficou doce Assim que o teu cheiro forte e lento
Fez casa nos meus braços E ainda leve, forte, cego e intenso Fez saber que ainda era muito E muito pouco
(Daniel na cova dos leões – Legião Urbana)
Descobertas sentimentais
Se amar era um suplício, uma dor, um desatino, porque as pessoas procuravam tanto a alma gêmea, o par perfeito, o amor de suas vidas?
Mas a solidão é pior, dizia Agenor. Não importa se você ama um homem ou uma mulher, o importante é a alma. E ele estava certo.
Durante toda a minha vida achei que poderia apenas amar mulheres, ter filhos e ser feliz. Casei-me duas vezes e continuava infeliz, incompleto. Faltava a alma.
E a alma estava em Renato. Mas só descobri isso quando rompi meu segundo casamento.
O preconceito foi barreira para a minha felicidade. Não deveria, eu sei. Mas eu me influenciei me contaminei com o senso comum daquelas pessoas que vivem de caras e bocas e almejam ser como os artistas de TV.
Na mesa de jantar isso era mais claro. Todos querendo ser simpáticos, mostrando que sabiam lidar com os talheres e apreciar vinhos portugueses. A comida sempre farta e a contradição também.
O amor por Renato me doía, cortava minha carne, meu coração. Eu me culpava, me corroia por dentro como o ferrugem come o ferro. Escrevi inúmeras poesias para ele, inúmeras canções...Até que um dia ele me ofereceu um cigarro e ficamos juntos por dois anos.
Estou só, a solidão é mesmo ruim como me dizia Agenor. Mas hoje prefiro a solidão à aparência. Assim eu me sinto livre.
*Conto-reflexão escrito por Priscila Maravilha.
** Toda segunda o Intelecta traz um conto, uma reflexão ou uma poesia para você!
Escrito por Intelecta City às 11h42
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EM DOIS TEMPOS O INSTANTE DE...
I
[E assim, à parte mesmo a necessidade de vermes intermediários, se apodrece vivo]
Datei nos meus sentimentos
prazos de validade:
Amizade,
Amor,
Namoro,
Casamento,
[...],
e não entendi,
quando após algum tempo,
à procura
de meus traços perdidos,
encontro meu,
aquilo
de dentro das gentes,
algum dia pessoas,
a que chamam
alma,
ser,
sei lá,
vazio,
completamente
vazio.
II
[Rascunho de um poema de acontecimento inominável, insinopsezável]
Passou o romantismo,
passou o modernismo
e chegou a sua radicalização,
mal,
como câncer,
como aparição propriamente dita da morte em vida,
como a maior das epidemias:
o descaminho acelerado da humanidade para a evolução
em uma corrida desenfreada porém [pretendendo-se] imperceptível para o nada.
Mas, eu,
preso também em tudo isso,
inevitavelmente ao te ver
me quis na pintura dos teus lábios.
Romântico? Ultra, hiper, pós, moderno?
Não sei aonde me encaixaria ou por que
mas fora de movimentos, épocas, e outras bobeiras e males,
eu me senti ser,
existente;
eu me senti menos
e então muito mais humano
no desejo agora de estar em teus lábios,
pintados, não pintados,
teus lábios.
* Poesia escrita por Homem Invisível
** Toda segunda-feira um conto (ou uma poesia) pra vc! Não perca!
Escrito por Intelecta City às 11h27
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SEM ESCOLHA
Sandra corria na estrada de terra. Por uns instantes fechou os olhos imaginando o que viria a ser a liberdade, abriu os braços, sentiu a brisa leve tocar-lhe o rosto. Desde os 14 anos ela não sabe o que é brincar na rua. Mas na sua inocência, acredita no futuro, na bondade.
Ali, no interior da Bahia, a prática era comum. O pai deu a filha a um homem que prometeu fazer dela a menina mais rica da Bahia. Em troca, recebeu umas moedas e um saco de pão. No fundo, seu João sabia qual seria o destino da menina: o mesmo de sua mãe.
Sandra corria. Seu destino era a BR-101 que poderia levá-la a Salvador, a 146 km dali.
A cidade pacata levava o nome de Cruz das Almas. Muito conhecida pelos shows de forró e de lambadão. A menina morena de olhos verdes dançava com as amigas em um baile próximo de sua casa, quando um homem de uns 40 anos se aproximou perguntando se ela queria ser dançarina.
Nas novelas as pessoas são descobertas por “olheiros”. Quem garantia que ele não era um, pensou.
A menina arrumou as malas e pediu “bença” ao pai. O homem que a levou era um olheiro, como Sandra imaginou.
Chegou a seu novo lar. Na frente, um pequeno palco, com luzes coloridas e muitas mesas em volta. Ela pensava que ali era o começo de uma vida de glamour. “Igual das dançarinas de axé”, pensou.
Pensou em um nome de artista para usar, na roupa cheia de brilho e nas entrevistas para a BA TV.
Em segundos os sonhos foram interrompidos por um grito. Um homem com a barba mal-feita e a camisa aberta se aproximou gritando seu nome: Sandra, venha cá!
Olhou os dentes, as pernas e apalpou os pequenos seios que ensaiavam crescer.
-Tu é bonita, menina! Bora, que vou lhe mostrar seu quarto.
Sandra seguiu o homem. Percebeu muitos quartos no interior da boate, pensou que participaria de um concurso e que ali era uma pousada onde ficariam para ensaiar.
Pensou, pensou, pensou... Mas nada daquilo aconteceu.
Sandra fora vítima da prostituição por dois anos. Explorada várias vezes na mesma noite, dolorida e com nojo de si própria, ela se agarrava ao pequeno urso que ganhou de seu pai e chorava por muitas noites sozinha. Não fez amizades ali, não queria envolvimento, pois planejava fugir.
Nestes 24 meses, Sandra usava o nome de Rubi e se vestia para aparentar ter 18 anos. Maquiagem pesada, batom vermelho e short curto.
Os homens que usavam seus préstimos forçados eram velhos para ela, alguns com 40, outros com 50 anos. Rubi era só uma menina e mal sabia o que era aquilo que lhe doía não só o corpo, mas a alma. Lembrou de sua mãe. Maria era uma mulher forte, astuta e de seios fartos. Dizia que trabalhava em casa de família, mas na verdade passava o dia na estrada. Os caminhoneiros pagavam bem. Sandra não tinha pai. Seu João assumiu a menina por piedade, mas sabia que ela poderia não ser sua filha. Maria-ninguém. João-ninguém. E Sandra ainda se sentia alguém, mas sabia que talvez não tivesse escolha.
O dia da fuga chegou. Sandra foi obrigada a “passear” na boleia do caminhão de um amigo do seu patrão. Foi.
O homem, muito violento, a agarrou. Sandra, num rompante, puxou o berrante que estava próximo ao seu banco e acertou em cheio na cabeça. O caminhão perdeu a direção e Sandra pulou, rolando mata adentro.
Ela corria. Não sabia ao certo quanto tempo estava correndo sem parar.
Pensou naqueles homens que entravam e saíam daquele quarto, no sonho de se tornar dançarina. Naquele patrão nojento que a ensinou a beber pinga e na maldade do mundo. Enfim, pensou no pai. Uma lágrima deslizou em seu rosto. “Pra lá eu não volto”, pensou.
*Conto escrito por Priscila Maravilha.
**Toda segunda-feira tem um conto interessante para você aqui no Intelecta!
Escrito por Intelecta City às 11h36
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