UMA NOITE

[ Ensaio sobre a ansiedade de uma adolescente]

 

Aquele relógio só podia estar quebrado. Bocas e abraços. A música tocava alta e as batidas iam direto nos pés, o que não nos deixava ficar parado. Dancei a noite toda. Música latina. Maná, Juanes, Jennifer Lopez, Rick Martin, todos no ritmo contagiante do tecno. Eles têm essa mania de pegar qualquer sucesso e transformar em tecno ou em axé, se estiver na época do carnaval. Realmente nada se cria.

Renato ofereceu-me um cigarro. Disse-lhe que não fumava.

“Mas você dança então?” Disse que sim, adoro dançar. Acho que dançamos umas duas horas juntos. Ele ofereceu uma cerveja, bebemos. Disse que queria sentar e ele foi até a mesa comigo, conversamos um pouco apesar do barulho. Trocamos telefones e ele foi embora. Márcia já estava na porta a minha espera e perguntou o mesmo de sempre: E aí, ele beija bem? Como ela podia ser tão superficial! Naquela noite eu não consegui dormir. Fiquei pensando se ele seria mais um na balada ou algo mais...Eu queria algo mais! Um ano desde que Flávio e eu terminamos o namoro, eu já não agüentava mais ser só. Será que Renato queria namorar ou só ficar? Estava tão quente...a noite quente e a cerveja esquentando. Nunca desejei tanto que alguém me ligasse. Não desgrudava os olhos do relógio. O tempo sempre anda devagar quando precisamos que ele vá depressa e nos traga as respostas. Ele parecia sincero. Eu estava há dez minutos ao lado do telefone. Ele, atrasado cinco minutos.

Mais um bombom. Uma balinha. Ansiedade. Escrevo algo na agenda. Um sorriso ao recordar os bons momentos. Dez, quinze, vinte...quantos minutos mais? Mas se ele ligar, o que vou dizer?

 

*Texto escrito por Priscila Maravilha!

**Aviso: Todos os textos publicados neste blog estão protegidos por direitos autorais, não podendo ser reproduzidos em outros sites. 



Escrito por Intelecta City às 09h52
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ANGÚSTIA

Não sei.

Talvez a pergunta ecoe pelo resto dos meus dias sem resposta que justifique sua existência.

Por que, por que não usar a nosso favor o medo, esse tudo que sentimos intacto na mais pura essência, ao invés de nos deixarmos esmagar implacavelmente por ele?

É tão sem explicação.

Agora a floresta do parque do Carmo pega fogo. E disso eu sei porque estou vendo – a fumaça sai do meio das árvores e, com algum esforço, é possível diferenciá-la do chumbo poluído já parte integrante do céu.

Desempregado emprego é o que eu procuro.

De repente a última entrevista.

A responsável pelo setor de RH da empresa fala que nós – eu e um bando de infelizes partilhando de algum modo da mesma desgraça – não devemos nos sentir desempregados ante o mercado de trabalho, mas sim disponíveis. A náusea me sobe, feroz, à garganta. Tachar-se de desempregado, segundo ela, é se auto-afirmar preguiçoso, ocioso – alguém incapaz de preencher qualquer função em seu dia-a-dia

Não entendi as comparações.

Um helicóptero sobrevoa a área aonde se propaga o incêndio. Ele despeja alguma coisa por sobre as árvores e por sobre o fogo, através de... de... bem, aí eu não saberia dizer, mas despeja uma coisa, água não é – provavelmente alguma solução química para reagir à do fogo.

O que é que eu vou fazer?!

Calor desgraçado, o clima abafado há tempos – inverno, tá bem, vai, quase primavera, o que em nada justifica os 32-33 graus centígrados de fornalha: esses 32-33 graus de fornalha nos assando o que resta de alma, pra deixar mesmo só o medo.

A menstr – não fui aprovado na entrevista: falta de qualificação, de experiência na área, coisa mais engraçada, não é?, como que haveria de ter a porra da experiência sem uma chance sequer?, mas não falei nada na hora, quando cheguei em casa fui atrás do meu mini Aurélio, uma, a única herança valiosa, um pequeno “furto” na verdade, da escola pública, para entender um negócio: “de•sem•pre•ga•do adj. e sm. Que ou aquele que está sem emprego.”; “em•pre•ga•do sm. 1. Aquele que exerce emprego ou função; funcionário. 2. V. empregado doméstico. Empregado doméstico. Bras. Aquele que presta serviço dentro de uma casa; criado, doméstico, empregado.”; “desemprego (ê) sm. 1. Falta  de emprego. 2. Econ. Situação em que parcela da força de trabalho (q. v.) não consegue obter ocupação.”; “dis•po•ní•vel adj2g. De que se pode dispor. [Pl.: -veis.]”; “dis•por v.t.d. 1. Arrumar, colocar em lugar(es) próprio(s), adequado(s), conveniente(s). 2. Colocar em certa ordem. 3. Estabelecer; prescrever. T.d.i. 4. Predispor. 5. Pôr de acordo, harmonizar. 6. Persuadir. T.i. 7. Usar livremente. 8. Desfazer-se (de algo). 9. Ter a posse. Int. 10. Resolver em caráter definitivo. P. 11. Decidir-se. 12. Dispor (8). 13. Preparar-se. 14. Dedicar-se. [Conjug.: 60 [dis]por]”¹; em resumo, estar disponível era como devíamos nos sentir, porque é mais fácil domar bois que não se sabem posses do patrão, dispostos para uso livre, do que domar (escravizar) sujeitos que se sentem profissionais insubstituíveis dentro de sua área, um algo mais do que uma pura estatística na nota do jornal lido de soslaio nas bancas; velhos números iguais que se risca e que se apaga das planilhas do Excel por algum administrador a estilo Roberto Justus bocejando rigor e bafo de café choco ante algumas tarefas das três da tarde: “manda embora que a gente conseguiu mão-de-obra mais barata, aquele faz tudo pelo preço simbólico do papel que a gente usa por mês pra limpar a bunda”, sem usar estas palavras, claro, que a cara hoje, a moda, é um idioma auto-ajuda pra implantar sorrisos inúteis e sem sentido nos frustrados e nos esperançosos; hoje não sei, pela situação em si, me aceitaria número disponível, moeda de troca, porque disponíveis as empresas pegam até “sem experiência” – é foda ver que a vida é tão dura que temos de nos humilhar até para conseguir um trabalho ruim. A menstruação

A menstruação não veio – foi isso. A todo instante a imagem dela com estas palavras. Aí é que eu parei de funcionar. E agora, o que vamos fazer? O que eu ia dizer? Há alguma coisa especial para se dizer nessas horas? Eu te amo, coisa e tal? Sei lá, sinceramente talvez a melhor, pela situação e pelo mundo podre: um aborto?

Pensamentos loucos.

A coragem foge do medo – o que fazer?

Vejo o helicóptero, que vai, que volta. O fogo quase domado. Parque do Carmo sempre em chamas (em todo lugar algo sempre pega fogo, só que de outras maneiras, mas mesmo que indiretamente, em todas as ocasiões ateado por nós mesmos – não, em quase todas). Certeza de que não foi um incêndio criminoso – quer dizer... –, foi  uma mandinga, com tudo o que tem direito; completa. Por que essa gente faz isso? – a coisa do mundo regido pelos opostos, sei lá, já não sei se acredito.

Desacredito da situação de agora. A gravidez, o desemprego, por que nessa hora tão imprópria? A gilete de fazer a barba; os remédios para dormir, para ficar acordado mais os para o estômago; em reivindicação o terceiro andar e o térreo de um shopping qualquer. O que é uma solução para hoje? 

Pensamentos loucos.

A coragem que foge do medo... O incêndio cessou (se continuasse não precisaria ver a manchete: “Fogo se alastra no parque do Carmo, zona leste de São Paulo!”). Agora só há o céu obscuro com a minha e com outras realidades obscuras. No chumbo não piscam rotas. O medo que não foge à coragem pode ser um estímulo, um empurrão para frente talvez. Os 32-33 graus fornalha aqui; não há nada de positivo para se dizer: tudo o que se diz de positivo soa falso. O que fazer?, é a minha única pergunta.   

   

 ¹As definições de palavras são todas do mini dicionário Aurélio.

 

*Conto escrito por Homem Invisível.

** Toda segunda-feira uma novidade no Intelecta para vc! Não perca!



Escrito por Intelecta City às 13h49
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